Quando a mentoria não funciona na carreira artística

Autossabotagem, vitimismo e o mito da “estrutura que resolve tudo”

Tem muita artista que sonha em fazer uma mentoria para artistas independentes. Imagina a cena: alguém mais experiente senta do seu lado, te escuta, organiza suas ideias, mostra caminhos, compartilha contatos. A sensação é de que, finalmente, “agora vai”. A Catalisadora Maia nasceu também de uma vontade de criar esse tipo de espaço: um laboratório de cuidado, estratégia e estrutura para quem vem da música independente e das quebradas. Mas, com o tempo, a gente aprendeu uma coisa que nem sempre é fácil de ouvir: mentoria não é milagre, e estrutura nenhuma dá conta quando a autossabotagem está no volante.

Em vários processos, vimos a mesma cena se repetir com artistas diferentes. O encontro é potente, o plano é bem desenhado, as metas fazem sentido. A pessoa sai animada, promete que vai colocar tudo em prática. Na reunião seguinte, quase nada foi feito. Em vez de olhar para isso com honestidade, entra em cena o combo conhecido: “minha vida é muito difícil”, “não tive cabeça”, “ninguém me ajuda”, “quando eu tiver mais tempo/equipamento/dinheiro, aí sim”. O problema não é ter dificuldades reais – elas existem e são estruturais para artistas independentes no Brasil. O problema é quando essas dificuldades viram desculpa automática para qualquer travamento, como muitas análises sobre música independente e seus obstáculos apontam.

Autossabotagem, no contexto da carreira artística, não é só procrastinar uma tarefa. É se inscrever num processo que exige compromisso e, na hora de sustentar esse compromisso, se colocar sempre no papel de quem não tem escolha. É dizer “sim” para uma mentoria, mas nunca chegar na hora, nunca fazer a lição de casa, nunca olhar de frente para o que precisa mudar na rotina, nas finanças, nos relacionamentos profissionais. É transformar o próprio caos em identidade, como se organizar significasse “deixar de ser artista”. A consequência disso é dura: a pessoa anda em círculos e sai com a sensação de que “mentoria não funciona”, quando na verdade ela nunca se colocou por inteiro no processo.

Existe também um mito muito forte no corre: o mito da estrutura que resolve tudo. Ele diz mais ou menos assim: “Quando eu tiver um selo, um produtor, um mentor, um edital, um escritório, uma equipe… aí sim a minha vida vai andar”. É verdade que estrutura muda jogo. Ter estúdio, planejamento, orientação, rede e contrato faz diferença real, principalmente para quem historicamente foi deixado de fora desses espaços. Mas nenhuma estrutura substitui o pedaço que é seu: acordar, aparecer, responder, decidir, dizer “não” pra algumas coisas, dizer “sim” pra outras, bancar as escolhas no tempo. Essa diferença de postura aparece também em relatos sobre a cena de música periférica e independente.

O que a gente vê na prática é que a mesma estrutura que alavanca uma pessoa pode ser desperdiçada por outra. Duas artistas entram no mesmo programa, com o mesmo acesso a mentoria, estúdio e rede. Uma assume o protagonismo, encara a autossabotagem de frente, admite limites, organiza um mínimo de rotina, erra e volta. A outra some, falta, não responde, chega sempre com a vida em chamas, terceiriza tudo para o “sistema” ou para a equipe. No fim, parece que a mentoria “funcionou” para uma e “não funcionou” para outra, quando a diferença estava na forma como cada uma se relacionou com o processo – algo que a gente aprofunda no artigo “Vencendo a Autossabotagem na Gestão Artística”.

Na Catalisadora Maia, a gente não romantiza isso. Sabemos que existe racismo estrutural, desigualdade de classe, falta de políticas públicas, precarização do trabalho artístico. Sabemos que muitas das pessoas que chegam até nós estão segurando trampo formal, cuidado da casa, filhos, estudos e ainda tentando manter a arte viva. Por isso, não trabalhamos com um discurso de “é só querer”. Ao mesmo tempo, aprendemos que não dá para confundir entendimento das estruturas com licença para abandonar toda responsabilidade individual. Quando a pessoa se apega ao vitimismo como narrativa principal, qualquer tentativa de organizar vira ameaça à identidade dela. E aí não tem planilha, sala de ensaio ou edital aprovado que dê conta – e essa conversa aparece também em debates sobre comunidades catalisadoras e periferias.

Mentoria, do nosso ponto de vista, é um acordo adulto. De um lado, quem facilita precisa oferecer escuta qualificada, ferramentas, referências, metodologia, devolutivas sinceras, limites claros. Do outro, quem é mentorada precisa aparecer, fazer perguntas, testar caminhos, reconhecer quando está se sabotando, pedir ajuda de forma concreta. É nessa encruzilhada que algo novo pode nascer. Quando um desses lados abandona o acordo, o processo deixa de ser mentoria e vira outra coisa: ou assistencialismo, ou cobrança vazia. Nenhuma das duas funciona para construir carreira.

Se você já passou por uma mentoria e saiu com a sensação de que “não mudou nada”, talvez valha a pena se perguntar, com carinho e honestidade: eu realmente fiz a minha parte? Eu usei esse tempo pra mover alguma coisa ou só pra desabafar? Eu segui uma parte mínima do que foi combinado ou fiquei esperando que o outro lado resolvesse meu caos? Não são perguntas para gerar culpa, e sim para abrir possibilidade. Autossabotagem não se quebra de um dia pro outro, mas ela também não é sentença. Ela é um padrão que pode começar a ser visto, nomeado e, pouco a pouco, transformado.

Na Catalisadora Maia, a gente tem falado cada vez mais sobre isso publicamente. No artigo “Vencendo a Autossabotagem na Gestão Artística”, por exemplo, trazemos estratégias práticas para mapear gatilhos, organizar metas e assumir protagonismo na sua trajetória, com exercícios simples que cabem no caderno ou no bloco de notas do celular. Essa conversa não é sobre apontar dedos, é sobre construir caminhos concretos para que artistas e produtores consigam fazer a travessia de uma relação infantil com a carreira para uma relação adulta, onde cuidado e responsabilidade andam juntos.

Se você sente que está nesse lugar – percebendo que a estrutura sozinha não vai te salvar, mas ainda sem saber como sair do ciclo de autossabotagem – os programas de mentoria e consultoria da Catalisadora Maia podem ser um próximo passo. No nosso site, contamos mais sobre como funcionam os processos de Desenvolvimento Artístico e Gestão de Carreira, pensados para artistas independentes que querem se organizar sem abrir mão da própria linguagem. Também reunimos, no blog da Catalisadora Maia, outros textos sobre desafios da música independente, rotina criativa e profissionalização, para você ir se fortalecendo enquanto caminha.

Mentoria não é promessa vazia, nem milagre. É ferramenta. Nas mãos de quem está disposto a se olhar, se responsabilizar e agir, ela vira ponte. Nas mãos de quem ainda acredita que “quando a estrutura vier, tudo se resolve”, ela tende a virar mais uma desculpa. A escolha de que lado você quer ficar continua sendo sua.

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